22.2.12

Revertere Ad Locum Tuum

    Das coisas cotidianas nós já não conseguimos extrair muita informação. Quando crianças nós já aprendemos que se você largar uma maçã no ar, ela vai cair, que quando você é rude com alguém, esse alguém provavelmente será rude com você, que se você correr muito você cansa e que sexta feira ao anoitecer vai ter engarrafamento. É nas adversidades, nas coisas extraordinárias que nos acontecem que está o aprendizado. Nas crises, nos acidentes, nas interações com novas pessoas, nos lugares diferentes. E se é do novo e do caos que nós podemos extrair alguma sabedoria, o carnaval deveria nos tornar a todos grandes filósofos.
    Quem já participou do carnaval de rua do Rio de Janeiro sabe que não há nada igual.O evento é incrível. O título de maior festa do mundo não passa nem perto de ser falso. É uma festa, uma, não várias, no sentido mais simples e básico da palavra. Uma agregação de pessoas reunidas para beber e se divertir e sair da rotina, escapar do cotidiano. Carnaval é catarse. E como catarse, esse ano eu testemunhei algo emblemático. Às bordas da Orquestra Voadora, algumas centenas de pessoas começaram simplesmente a correr em círculo, gritando. Elas corriam e corriam em torno de um centro de concreto que funcionava como pit stop e repositório de corredores. Eventualmente algum grupo começava a correr na direção oposta e, com surpreendente organização, os outros seguiam e continuavam todos juntos na mesma direção. A loucura durava vários minutos até que, eventualmente, os corredores, fantasiados, suados e bêbados, se dispersavam. Mas alguns minutos depois alguém tinha vontade de continuar a catarse e começava a correr de novo, gritando e, num piscar de olhos, o redemoinho de foliões (palavra escrota, com cara de globo) começava de novo. Eu, é claro, tomei parte no evento assim que o percebi, à distância. Correndo no meio daquele grupo de desconhecidos, berrando, eu aprendi que carnaval é catarse. É vontade de extravasar todas as pressões, inseguranças, repressões sociais e restrições que o carioca vive no seu dia a dia.
    No carnaval os ânimos ficam exaltados. As relações interpessoais ficam mais intensas e surgem mais ocasiões de conflito, mais faíscas. Carnaval é crise e crise purifica. Da mesma forma que o carioca vive e sente as faltas de estrutura e a imaturidade que sua cidade sofre, ele também descobre as fragilidades e  incertezas na sua própria vida e nos seus relacionamentos. Carnaval é curso intensivo de vida. Só não aprende quem não quer.