Das coisas cotidianas nós já não conseguimos extrair muita informação.
Quando crianças nós já aprendemos que se você largar uma maçã no ar, ela
vai cair, que quando você é rude com alguém, esse alguém provavelmente
será rude com você, que se você correr muito você cansa e que sexta
feira ao anoitecer vai ter engarrafamento. É nas adversidades, nas
coisas extraordinárias que nos acontecem que está o aprendizado. Nas
crises, nos acidentes, nas interações com novas pessoas, nos lugares
diferentes. E se é do novo e do caos que nós podemos extrair alguma
sabedoria, o carnaval deveria nos tornar a todos grandes filósofos.
Quem já participou do carnaval de rua do Rio de Janeiro sabe que não há
nada igual.O evento é incrível. O título de maior festa do mundo não
passa nem perto de ser falso. É uma festa, uma, não várias, no sentido
mais simples e básico da palavra. Uma agregação de pessoas reunidas para
beber e se divertir e sair da rotina, escapar do cotidiano. Carnaval é
catarse. E como catarse, esse ano eu testemunhei algo emblemático. Às
bordas da Orquestra Voadora, algumas centenas de pessoas começaram
simplesmente a correr em círculo, gritando. Elas corriam e corriam em
torno de um centro de concreto que funcionava como pit stop e
repositório de corredores. Eventualmente algum grupo começava a correr
na direção oposta e, com surpreendente organização, os outros seguiam e
continuavam todos juntos na mesma direção. A loucura durava vários
minutos até que, eventualmente, os corredores, fantasiados, suados e
bêbados, se dispersavam. Mas alguns minutos depois alguém tinha vontade
de continuar a catarse e começava a correr de novo, gritando e, num
piscar de olhos, o redemoinho de foliões (palavra escrota, com cara de
globo) começava de novo. Eu, é claro, tomei parte no evento assim que o
percebi, à distância. Correndo no meio daquele grupo de desconhecidos,
berrando, eu aprendi que carnaval é catarse. É vontade de extravasar
todas as pressões, inseguranças, repressões sociais e restrições que o
carioca vive no seu dia a dia.
No carnaval os ânimos ficam exaltados. As relações interpessoais ficam
mais intensas e surgem mais ocasiões de conflito, mais faíscas. Carnaval
é crise e crise purifica. Da mesma forma que o carioca vive e sente as
faltas de estrutura e a imaturidade que sua cidade sofre, ele também
descobre as fragilidades e incertezas na sua própria vida e nos seus
relacionamentos. Carnaval é curso intensivo de vida. Só não aprende quem
não quer.
1 comentários:
É como gritar no quartinho feito para gritar. É como ficar nu em uma praia de nudismo. Como aquelas coleiras com elástico em que a gente corre um pouco mais.
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