27.7.11

Conto n° 4

Quando Maria Clara saiu de casa tinha aquela sensação insuperável de que tinha esquecido algo. Conforme descia as escadas, repassava mentalmente tudo o que devia trazer consigo. - Óculos? Sim. Celular? No sutiã. Chaves? Aqui. Uhm... O que eu esqueci? E enquanto pulava os próximos três degraus, esquecia do esquecimento e imaginava se Dudu estaria lá. - Ah, pode ter sido a carteira! Verificou a bolsa. Fora algumas tralhas aleatórias, a carteira era a única coisa que estava ali. - Tá aqui.


Sabia que não precisava levar a bolsa para uma festa assim, a maioria das suas amigas simplesmente enfiava as coisas no meio dos peitos, mas ela fazia questão de ter a carteira sempre consigo e precisava da bolsa para carregá-la.


Maria Clara ganhou sua primeira carteira de seu pai quando fez doze anos. Ele não costumava interagir muito com ela e, sempre que tentava, parecia não saber muito o que fazer. Talvez por isso, quando ganhou essa carteira, a menina decidiu que era o melhor presente do mundo. Passou meses explicando às amigas as vantagens do acessório (hábito que mantém até hoje) e se especializou em toda forma, material, marca e categoria de carteira. Teve modelos de todo tipo. Couro preto, marrom, sintéticos, com zíper, daquelas mágicas que você bota o dinheiro, abre do outro lado e o dinheiro fica preso. Carteiras gordas, carteiras magras. A que usava agora era uma Tommy Hilfiger de couro preto, magra e sem zíper, com espaço para todos os seus cartões de um lado, compartimento transparente para a identidade do outro e, atrás, uma parte para o dinheiro e uma parte para cheques que ela utilizava para guardar ingressos dos shows a que tinha ido. Era uma carteira de rico, não tinha lugar para moedas.


Mas a carteira estava ali, não era isso que tinha esquecido. Pensou mais uma vez no ritual que devia cumprir antes de sair de casa (agora já estava alcançando o carro da amiga). - Tomar banho, desodorante, desligar o computador, luz, um copo de leite - sua mãe sempre pedia que tomasse um antes de sair - escovar os dentes. Tinha feito tudo, não conseguia descobrir o que era, mas a sensação continuava. Melhor deixar pra lá. Entrou no carro, foi para a festa.

Bebeu muito, ganhou vários shots. Dudu não estava lá mas conheceu Marcelo. Simpático, bonito, barbudo mas bem arrumado, um papo legal. Quando a festa estava começando a morrer foram embora.

Atordoados, os dois andavam pelas ruas. Era quarta feira e ainda estava escuro. Falavam besteira por um minuto e riam três. Marcelo tirou uma bagana do bolso e eles foram se agarrando de esquina em esquina. Uma hora a rua estava particularmente calma, escura e vazia, Maria Clara se lembrou do que tinha esquecido. Abriu a bolsa, pegou a cartela do anticoncepcional e tomou o do dia. Largou tudo o que carregava no chão, bolsa, carteira e anticoncepcional e fez ali, encostada na grade do prédio de seu ex-namorado, o sexo mais selvagem de sua vida.

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