Deitado na cama, rolava de um lado parao outro sem conseguir dormir. Sua temperatura subia, começava a suar. Náusea, tremedeiras, dor de cabeça. O coração batia rápido e apertava o peito. Já tinha tido outras crises antes mas nunca tão forte como essa. Sentia os lábios incharem, latejando. Começavam a coçar. Se sentia fraco, sem forças. Tentou se levantar. Conseguiu com muito esforço, parecia que toda sua energia estava concentrada em seu rosto, entre o nariz e o queixo. Caminhou com dificuldade até o banheiro esbarrando no criado mudo no caminho. Parou em frente ao espelho apoiando as mãos sobre a cuba da pia. Levantou a cabeça e não conseguiu entender bem o que estava vendo. O rosto que via ali normalmente tinha um olhar firme, decidido, confiante e alegre, pronto para enfrentar o que quer que fosse que o mundo colocasse à sua frente com um sorriso no rosto. Agora não reconhecia aqueles olhos que o encaravam, vermelhos, inchados, mexendo-se nervosamente, emoldurados por um rosto pálido, úmido de suor. Mas o mais estranho era, sem dúvida, a boca que o reflexo mostrava. Os lábios inchados até a desproporcionalidade eram de um vermelho escuro que não parecia de um pigmento que a natureza pudesse produzir. Estavam cobertos de pequenos pontinhos pretos que pareciam querer saltar para fora. Enquanto encarava os lábios do quase estranho no espelho, sentia seus próprios lábios coçarem cada vez mais e já começavam a doer.
Foi até a cozinha e tomou um copo d’água mas antes de esváziá-lo sentiu uma dor aguda na boca como se alguma coisa se rompesse. Só pode ouvir o vidro se espatifando no chão enquanto corria de volta para o banheiro apenas para ver uma cena mais do que inusitada. Dos pontos negros nos seus lábios brotavam pequenos caules verdes como broto de feijão saindo de um algodão umedecido. Eles cresciam descontroladamente e comaçavam a se emaranhar à sua frente. Chocado e sem forças para reagir, ele apenas observava, estupefato, a cena bizarra que o seu corpo produzia. O emaranhado de brotos se adensava e começava a tomar a forma de uma esfera, aos poucos, dessa esfera começava a emergir uma espécie de cilindro em direção ao chão que depois se alargava no que parecia a forma de... ombros? Dos pontos que surgiram na sua boca nascia agora uma escultura. Um tronco humano começava a tormar forma na sua frente (era possível reconhecer que era feminino) e dele, por fim, brotaram pernas que terminavam em pés delicadamente tocando o chão. Os galhos que ligavam a escultura recém-formada à sua boca se romperam e ele sentiu seus lábios desincharem. Foi fácil reconhecer aquela silhueta feita de plantas, a versão em carne e osso dela não saía de sua cabeça há tempos. Depois de ficar alguns minutos sem se mexer, olhando a estátua, ele levantou um braço lentamente e tocou o rosto dela com a ponta dos dedos. Os brotos começaram a se mover novamente e se adensar formando os detalhes do rosto, então o verde começou a desbotar e mudar de cor, os seios começaram a se mexer lentamente como que respirando e por fim a estátua tomou vida.
Sem pensar muito ele fez a única coisa que podia naquele momento, tomou-a nos seus braços e a beijou.
1 comentários:
Abester-se de algo ou de algum sentimento é a única forma (acredito eu) de reconhecer, quando retomamos o vício, se o amor é verdadeiro ou não, se este sentimento, sensação é passageiro, se é só mais um momemto ou não, se é simplesmente mais uma bebida da qual me permito embriagar, para, depois de bêbado, observar se é possível voltar ao vício ou não.
Talvez retornemos ao vício, sem provar a bebida ou sem saber o seu real sabor. Quando isto acontece temos medo de descobrir o seu sabor, nos contentando simplesmente com sua exitência, pois sentimos muita vertigem antes de nos envolver em um vício, estando totalmente conscientes de que o desejamos mais do que a nós mesmos.
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