10.4.11

Reflexões

Gosto de vir ao sítio. Aqui o silêncio, a noite, a natureza, a simplicidade me proporcionam um ambiente único de reflexão. Aprecio as coisas mais simples do mundo. Me encanto com as cores primárias e todas as suas tonalidades que parecem se encontrar de forma tão harmoniosa em meia à inexplicável ordenação estética da natureza. Ou será que é a nossa estética que se adapta à natureza pra que não morramos de desgosto ao encarar a feiúra do caos? Enfim, divago.

Aqui a dimensão de todos os problemas do mundo parece dissolver-se conforme eu começo a me preocupar com os carrapatos do cachorro, a cerca do horta derrubada pelo vento, a paixão bêbada do vizinho pela empregada, os problemas adolescentes comuns das meninas a quem minha mãe ensina artesanato.

O tempo parece passar de um jeito diferente, não há lugar para a pressa. O que vier amanhã, virá. Como não há muito o que fazer, faço cada coisa com cuidado. Continuo inventando desculpas para não ter que estudar, escrever esse texto, por exemplo. Mas acho que dedico mais tempo ao esforço.

Mas nem tudo são flores. Aqui a monotonia e a falta de complexidade das coisas me permite refletir com clareza sobre a falta de sentido de tudo. A religião parece fazer mais sentido porém, sinceramente, acredito que seja uma maneira de fugir ao abismo quase inevitável da falta de sentido. Não há muitas distrações, se me ponho a pensar sobre o futuro, a eternidade, a existência, não há nada pra frear o peso enorme dessa epifania da minha insignificância. A inércia desses pensamentos que me arrastam como uma locomotiva poderia me levar à loucura. Mas não é assim. Se me encontro no meu quarto claustrofóbico em Niterói e penso nessas coisas, o fluxo absurdo com que vêm parece inundar o ambiente e eu não encontro saída e me sinto afogar no medo e na ansiedade e, sem forças ou motivação pra resistir, eu não tento nadar e fico deitado no fundo, o ar acabando aos poucos e o peito começando a doer pela pressão da profundidade.

Mas aqui, eles vêm e o seu fluxo me carrega. Eu flutuo sobre a superfície da enxurrada e observo o céu e o céu não acaba. Conforme os pensamentos me carregam eu não me sinto oprimido, o medo se transforma em passividade e ao invés de me sentir ansioso, me conformo com tudo. Não que isso seja exatamente bom, mas aí a culpa já não é mais do lugar mas do absurdo imbatível da existência. A pretidão das águas que me carregam.

Mas não posso ficar muito tempo. Aqui ou lá. Encarar a realidade da existência excede as minhas forças e eu preciso voltar pra fantasia da sociedade. As nóticias - corrupção na câmara, tsunami no Japão, assassinato brutal no interior de São Paulo, um novo software, uma comida que voltou a ser considerada saudável; as responsabilidades da vida cotidiana - estudar, ter uma profissão, arranjar um emprego, cuidar da família; as fugas do cotidiano: os amigos, os bares, as namoradas. Tudo é fantasia para não encararmos a única realidade: Todos vamos morrer. Antes de nós não existia nada, e depois não vai existir nada. Tudo o que fazemos é insignificante. A vida é efêmera e o tempo é uma ilusão.

Viva.

6 comentários:

Anônimo disse...

Os sítios, espaços reservado ao livre pensamento, que tanto nos afeta nas cidades. Lá como você disse, tudo segue a ordem "natural", então porque correr ou dormir menos, o dia vai amanhecer a noite vai chegar mesmo.

As noites, estas possuem uma beleza singular, que me fascina e embriaga. As tempestades são belas, capazes de conciliar beleza e desafio, adrenalina e poder.

Toda a minha infância, passei em um sítio, este tinha e têm uma diferença peculiar, o vizinho mais próximo esta a meia hora, assim, cresci convivendo com a realidade de que o ser humano é interessante, mas não é condição essencial a existência ou vida do outro, isto no contexto de social.

Quando cheguei a Niterói, confesso que me assustei. Aqui as pessoas deixam suas casas para não se sentirem só, frequentando qualquer espaço que lhes proporcione a sensação de ter companhia, de que há outras pessoas como ele, fugindo de si mesmo; contudo, se sentindo cada vez mais vazio, e sem saber porque, procura sempre mais e mais se encontrar, fugindo de sua mais terrível realidade, que para muitos é rotulada como solidão.

Rótulos. O que seria do ser humano, se eles não exixtissem?

Há muitas diferenças entre o sítio e a cidade, mas um fator eles têm em comum. Os seus habitantes sempre procuram dar sentido a vida, criar uma rotina, alcançar objetivos, ser útil, coisas do tipo como estudar, trabalhar, etc, procurando organizar um caos, que sempre é e será maior que nós mesmos.

rodrigo oabc disse...

ei, quem é você? seu comentário tá melhor que o texto! =)

Anônimo disse...

Cheguei a conclusão que a coisa mais insensata e sem sentido é tentar buscar uma racionalização em tudo. Até porque a nossa coerência não nos permitiria divagar sem tantas preocupações banais relacionados à organização dos nossos pensamentos.
E por vezes nos perdemos nesse excesso de obrigações que temos que nos priva até mesmo de darmos um significado próprio a nossa vida. A nossa vida não é nossa.

Eu sou fascinada pela questão do tempo que, inevitavelmente, se mescla com reflexões sobre o sentido da vida, então vou compartilhar trechos de um conto meu...

Anônimo disse...

Manhã, segunda-feira. João acorda com o alarme do despertador. Atordoado pelo sono, levanta-se e caminha cambaleante em direção ao banheiro. O som do bocejo acompanha o habitual ato de se olhar no espelho. A imagem que se refletia era de um homem com uma feição de uma paisagem estática, como se fosse uma fotografia. Teria ele parado no tempo? Uma expressão distante e vaga que em pouco diferenciava-se de um vegetal.
Tempo... João pensava que o tempo era só mais um aspecto inventado. "O que diabos é o tempo? Algo que serve para medir o vai-e-vem do sol? Não, a função principal é anunciar todos os dias o quanto as pessoas dependem e ao mesmo tempo sofrem com o tempo."
Notícias matinais desfilam no aparelho de TV como se fossem meras alegorias carnavalescas enquanto João veste preguiçosamente seu paletó um tanto desbotado, olhando distraidamente para o chão. "Pra que trabalho? Onde já se viu inventar uma atividade obrigatória? Aposto que se as pessoas pudessem, nunca mais levantariam da cama para ir a serviço algum."

Firma onde ele trabalha, lugar com inúmeros funcionários que mal cruzam os olhares uns com os outros, mas que felizmente sempre sabem quem é o favorito do chefe no momento. "Um local de muitas amizades e convivência" – dizia sempre um jovem formado em administração e recém-contratado pela empresa. "Lugar de muita aprendizagem. O mundo é selvagem e percebe-se que as pessoas são bem mais"- palavras de uma outra funcionária. E João, mais do que ninguém, compartilhava desse espírito amistoso que sempre tomava conta do lugar. "Máscaras, sempre usamos."
E assim João foi andando em direção ao trabalho. Largas passadas que almejavam o quanto antes chegar ao seu destino e o mais rápido, livrar-se desse. O trabalho não pagava muito mas era a única forma de sustento dele, que vivia largado no mundo desde sempre. "Há quem possa ser largado no mundo desde sempre? Ora, filhos do tempo e escravos do trabalho. Ou por que não dizer escravo do tempo e do trabalho?"

(...)

Passam-se dias e João está cada vez mais apático, parecendo estar preso em sua própria mente. Há quem pense que o pensamento detém uma grande liberdade capaz de fazer de transformar qualquer coisa em algo muito livre. Dificuldades em descrever a liberdade. Poetas são livres para criar mas estão presos a palavras. A algo que delimita mesmo que tenha uma infinidade de significados. Liberdade é como a imobilidade do tempo. Tão irreais...

(...)

As pessoas olhavam abismadas a essas manifestações de João enquanto ele andava pelas ruas. Como poderia um mendigo caminhar com o peito estufado e sorriso no rosto estando em tal condição? Isso era certamente uma prova de loucura.
Louco. Louco. Louco. Realidade difusa, confusa, desnuda, torpe. Realidade que caracteriza o que não tem característica. "A minha realidade é melhor que essa. É mais humana embora não contenha nenhum humano além de mim mesmo. Nada mais humanizado!"
Abre os olhos que nada vêem a não ser a figura disforme de um ser que não é, e sim está sendo. Sendo uma criatura passível de mudança e estática na sua própria realidade. Seria isso um estado de loucura? Uma liberdade que nela aprisiona os mais tolos.
Vagando. Vagando. Vagando. Rosto inexpressivo, serenidade esculpida em uma face sem face. Conformidade com um mundo do qual faz parte, mas que não inclui as demais pessoas. Um mundo sem mais trivialidades, sem cerimônias. Mundo irreal, mas real.
E um joão componente de um mundo descritivo fica para trás para dar lugar ao real João filho de um meio indizível.

Fim da efemeridade.

Heriédna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Olá
Confesso surpresa.
Após publicar um comentário com erros de ortografia e concordância, esperava críticas, principalmente do responsável pelo blog.

Lembrei de revisar o texto, durante aqueles três segundos entre uma janela e outra, já era tarde, já estava publicado.

Se possível, apague-o ou faça as correções necessárias. Por favor.

Respondendo a pergunta: ei, quem é você?
Sou a mesma pessoa que lhe enviou a mensagem com o título "corredores do if".
Obrigada